Falar sozinho
Um gajo queixa-se das velhotas que não se calam, das pessoas “básicas” que tendem a verbalizar o óbvio, mas sempre que estou sozinho (e passo muito tempo sozinho) acabo por expressar em palavras um ou outro pensamento que me ocorre. É bastante estranho uma pessoa estar na solidão bastante tempo (horas seguidas) mas é ainda mais assustador quando damos por nós a falar literalmente para as paredes, do tipo: um gajo pensa em palavras, reflecte (pensa uma segunda, terceira vez) mas meia volta lá solta uma frase, isto acontece, e sentimo-nos idiotas, pensamos para os botões: “’tás a falar com quem man?! tipo… estás sozinho!”.
Não sei se sou eu, mas sinto-me estupidamente estúpido quando estou a micar algo (abandonado ou acompanhado) e me rio solitariamente, fico a pensar: ou este povo é semi-retardado ou eu sou incrivelmente esquisito, terei humor demasiado requintado? só eu é que atingi a piada ou estarei a ficar-me pelo humor fácil?!”
Eu agora que vivo cinco dos sete dias da semana isolado é que consigo perceber o quão estranho é para as donas de casa que esperam os maridos/filhos para poderem falar, consigo hoje assimilar que é intelectualmente bastante castrador não comunicar de todo com alguém, por mais simples que seja a conversa por mais básico que seja, nós precisamos de nos sentir ouvidos, de saber que alguém escuta o que pensamos, de impor aos outros que nós também temos ideias.
Nos dias de hoje que vivemos em “colmeias” chamadas cidades, em prédios onde não conhecemos a vizinhança penso que é credível e viável que existam pessoas que paguem para ser ouvidas, pois precisam de se sentir valorizadas e isso passa por se sentirem capazes, de sentirem que (mesmo que forçadamente) há quem tenha interesse em os escutar.
sábado, abril 23, 2005
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